sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"Meu padrinho é Obaluaê, Orixá ê"


"A chamada teologia da batalha espiritual tomou força nas duas últimas décadas, junto com o crescimento do universo evangélico que inclui hoje forte poder midiático e político. Essa expansão evangélica no Brasil também fez eclodir atos de intolerância religiosa praticados contra as religiões afro-brasileiras, principalmente partindo de neopentecostais. Desde que o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), o bispo Edir Macedo, declarou guerra aos "orixás, caboclos e guias" numa clara alusão aos elementos dos rituais do candomblé, da umbanda e do espiritismo, jornais, revistas e a mídia em geral têm noticiado os constantes ataques sofridos pelas religiões de matriz africana. O demônio iurdiano leva o nome de "exu", "pomba-gira", "encosto", ou seja, para esses neopentecostais tudo que se refere às religiões afro-brasileiras é contagioso; é obra do diabo e deve ser evitado por aqueles que optaram por "aceitar Jesus"." (LUI, 2008)

"Tratado durante muito tempo com discrição e segredo, o culto dos exus e pombagiras, identificados erroneamente como figuras diabólicas, veio recentemente a ocupar na umbanda lugar aberto e de realce (Prandi, 1996, cap. 4 e 2001). Era tudo de que precisava um certo pentecostalismo: agora o diabo estava ali bem à mão, nos terreiros adversários, visível e palpável, pronto para ser humilhado e vencido. O neopentecostalismo leva ao pé da letra a idéia de que o diabo está entre nós, incitando seus seguidores a divisá-lo nos transes rituais dos terreiros de candomblé e umbanda. Pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, em cerimônias fartamente veiculadas pela televisão, submetem desertores da umbanda e do candomblé, em estado de transe, a rituais de exorcismo, que têm por fim humilhar e escorraçar as entidades espirituais afro-brasileiras incorporadas, que eles consideram manifestações do demônio (Mariano, 1999)." (PRANDI, 2004)

"Ainda hoje nos candomblés do Brasil procura-se ensinar que a experiência é a chave do conhecimento, que tudo se aprende fazendo, vendo, participando. Cada coisa no seu devido tempo. Assim, o conhecimento do velho é o conhecimento legítimo, ao qual se chega ao longo de toda uma vida. Roger Bastide, que estudou o candomblé na década de 50, escreveu que "são os sacerdotes que têm a noção do valor do tempo; é o tempo que amadurece o conhecimento das coisas; o ocidental tudo quer saber desde o primeiro instante, eis por que, no fundo, nada compreende" (Bastide, 1978, p. 12)." (PRANDI, 2001)

Não é meu intuito emitir juízo de valor sobre Candomblé ou quaisquer religiões, não me jacto a tanto. Proponho uma reflexão àqueles que, ingênuos, deixam 'x' subir aos púlpitos, altares de templos religiosos e estando lá do alto com toda 'benevolência', diga-se de passagem, discernem sobre o que é bem e mal em suas vidas, muito cuidado com 'x'. Ou ainda acreditam em superstições, que acreditem, mas vejam seus limites.

Há algum tempo pessoas me procuram com o mesmo questionamento: "Você é de Cachoeira? 'Macumbeiro'/Filho de Santo?" Filho de Santo eu não sou, e não digo graças a Deus, não sou porque não tenho Santo e basta. Agora, 'má-cumba', creio eu, é algo fantasiado por essas pessoas, só existe na cabeça delas, algo macabro e tenebroso, seus pesadelos mais obscuros querem relacionar ao Candomblé, porque Candomblé, caro leitor, até onde sei não é nada disso, antes de abrir a boca pesquise e estude, não permita ser rotulado 'ignorante', afaste-se do senso comum o máximo que puder. Para os mais curiosos... visitem Cachoeira, procurem um terreiro, ninguém lhes fará mal, o Guarany de Oxossí visitei e gostei, que mal há nisso? O único mal que percebo nessa ladainha toda é o pré-conceito (com toda carga negativa).

"Julgando mal você gasta tempo e energia ao invés de levar a magia ao irmão seu." Ponto de Equilíbrio

“O sofrimento religioso é, a um único e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. É o ópio do povo”. Karl Marx

E não sou filiado a religião alguma. Quem quiser fazer uma consulta que procure um Babalorixá ou uma Ialorixá aqui desta terrinha abençoada por Deus, por todos os Santos e Orixás!

Um axé!

Referências

LUI, J. A. . Os Rumos da Intolerância Religiosa no Brasil. Religião & Sociedade, v. 28, p. 211-214, 2008.

PRANDI, Reginaldo. . O Brasil com axé: candomblé e umbanda no mercado religioso. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 52, p. 51-66, 2004.

PRANDI, Reginaldo. . O candomblé e o tempo: concepções de tempo, saber e autoridade da África para as religiões afro-brasileiras. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, n. 47, p. 43-58, 2001.

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